O Pão-por-Deus

NOME DA TRADIÇÃO FESTIVA:
O Pão-por-Deus

LOCAL ONDE SE PRATICA:
DISTRITO: Lisboa
CONCELHO: Lourinhã
FREGUESIA: Ribamar
LOCAL: Ribamar


DATA DE REALIZAÇÃO:
O Pão-por-Deus comemora-se no dia 1 de Novembro, dia de Todos os Santos. Este dia, bem como o seguinte, o Dia dos Fiéis Defuntos (2 de Novembro), integra-se nas celebrações de culto aos mortos.




Trata-se de uma crença ancestral, de muitos povos e civilizações antigas, em que os mortos subsistem em espírito e visitam os vivos em certas épocas do ano, devendo os vivos nessas alturas, oferecer alimento aos espíritos dos familiares já falecidos. Era este o objetivo de algumas práticas cerimoniais no Egito antigo, na Grécia clássica e em Roma, em que se depositavam alimentos nos locais de enterro e se realizavam banquetes rituais sobre as sepulturas.
Estas celebrações alimentares foram assimiladas pela Igreja e, em Portugal, o Pão-por-Deus é uma tradição muito presente na Estremadura, traduzindo o cerimonial em que os vivos pedem, oferecem e comem os alimentos destinados às almas dos defuntos. Os peditórios eram feitos pelos mais necessitados e evocavam as refeições (os bodos) com que os pobres (desde a Idade Média) eram contemplados em homenagem e sufrágio dos mortos.

RESPONSÁVEIS PELA ORGANIZAÇÃO:
A paróquia e as famílias.

PARTICIPANTES NA REALIZAÇÃO DA FESTA:
População de Ribamar.

DESCRIÇÃO DA FESTA:
O dia do Pão-por-Deus era o dia em que se repartia pão cozido pelos pobres. Antigamente, no Dia de Todos os Santos, as crianças saíam à rua e juntavam-se em pequenos grupos com os seus sacos de chita na mão para pedir o “ Pão-por-Deus” ou o “Bolinho”.
Segundo a D. Felicidade, bisavó do Gonçalo, no seu tempo eram todos muito pobres e o Pão-por-Deus era o dia de dar pão, milho e cevada aos pobres. Os mais abastados davam também fatias de pão doce de milho, que levava açúcar e canela. As crianças iam de porta em porta e, como ainda hoje se usa, pediam: Ti Maria, há pão por Deus? Em troca, recebiam como oferta: pão, broas, bolos, romãs, nozes, tremoços, pevides ou castanhas, que colocavam dentro dos seus sacos de chita, de retalhos ou de borlas. Os bolos típicos, confecionados para este dia, eram as broas feitas com farinha e erva-doce, mel (noutros locais levava batata doce e abóbora) e frutos secos como passas e nozes. Os adultos montavam uma bancada à porta, onde tinham exposto o que iam oferecer.
O Pão-por-Deus sofreu alterações e os meninos que hoje andam de porta em porta recebem, além das broas, dinheiro e rebuçados ou chocolates.
Neste dia a missa realizava-se no cemitério da freguesia. Como era feriado, toda a população podia assistir à cerimónia e, como Ribamar ainda não tinha igreja, as pessoas da localidade deslocava-se à Marquiteira para assistir à missa dominical. Na celebração litúrgica anterior ao dia 1 de novembro, o padre informava/relembrava a população de que a missa pelas almas do Purgatório se realizava no cemitério.
Quem preparava tudo o que era necessário para a cerimónia eram as pessoas que mantinham uma relação mais próxima com a igreja e eram da confiança do pároco. No largo do cemitério, junto às campas, colocavam uma mesa que pertencia à igreja e por cima, uma pedra de ara, para servir de altar. Para cobrir a mesa usavam três toalhas de linho: a primeira era de linho mais grosso e servia simplesmente para tapar a mesa; a segunda era de linho mais fino e a terceira era de linho com renda e mais comprida, servia para decorar e embelezar o altar.
Para além da mesa e respetivas toalhas, as pessoas responsáveis pelos preparativos levavam também o cálice, o vinho, as hóstias, a bandeja, os panos para limpar o cálice, a bandeja e as lamparinas, com pavio e azeite, que faziam o mesmo efeito que as velas que hoje se usam. A lamparina continha uma espécie de abajur em vidro transparente, tal como os candeeiros a petróleo, devido ao facto da missa se realizar na rua. O padre levava o missal e o respetivo suporte de madeira, e a missa não era cantada mas simplesmente rezada e sempre a invocar os fiéis defuntos.
Atualmente a missa do dia 1 de novembro (Dia de Todos os Santos) já não se realiza no cemitério, mas sim nas igrejas paroquiais e no do dia 2 (Dia dos Fieis Defuntos) faz-se, nos cemitérios das freguesias, uma homenagem e orações aos defuntos.
A D. Maria do Céu não se lembra quando é que a missa no cemitério terminou, referindo que antigamente o concelho da Lourinhã não era muito vasto e era fácil o sacerdote conseguir manter estes rituais mas, com a criação de novas freguesias - como Santa Bárbara, Atalaia, Ribamar - estes hábitos foram-se perdendo, pois nem todos os sacerdotes tinham a mesma forma de trabalhar nas suas paróquias e cada um organizava as cerimónias à maneira.


LUGAR ONDE SE REALIZA A FESTA:
Ribamar.

ATIVIDADES RELACIONADAS COM A FESTA:
No Dia de Todos os Santos, da parte da tarde, as famílias juntavam-se com os vizinhos e amigos em confraternização, comendo e bebendo. No dia seguinte, o mesmo grupo juntava-se e comia o que restara do dia anterior. Dizia-se que era o dia da “rapa”.

OUTRAS EXPRESSÕES DE PATRIMÓNIO IMATERIAL RELACIONADAS COM A FESTA:
Durante o peditório do Pão por Deus, as crianças também cantavam ou recitavam a seguinte ladainha:
Dar pão, por Deus
Que vos deu Deus,
P’ra repartir
Com os fiéis de Deus,
P’los defuntos de vossemecê.

AMEAÇAS À CONTINUIDADE DA FESTA:
O Dia de Todos os Santos, por ter deixado de ser feriado, é cada vez menos celebrado e o culto está em desuso. Também as relações de vizinhança e de partilha estão a diminuir e a solidariedade é, cada vez mais, feita por instituições. Estas razões, entre outras, são uma ameaça à continuidade desta tradição.

OUTRAS INFORMAÇÕES:
As toalhas, que se usavam todos os anos nas cerimónias, pertenciam a uma senhora chamada Maria Garcia Fernandes, tia-avó da avó paterna do Gonçalo Santos falecida em 1965. Enquanto foi viva, foi sempre ela quem cuidou das toalhas. Fez parte do grupo de pessoas responsáveis pela preparação deste dia, bem como da preparação dos jovens para a Primeira Comunhão e Profissão de Fé. Foi, durante muitos anos, a única catequista da terra (Ribamar) e os encontros com toda a juventude da localidade eram na sua adega. Quando faleceu, doou as toalhas à igreja, conforme a promessa que fizera.
Maria Garcia Fernandes, morreu a 31 de outubro de 1965, com cerca de 80 anos - pensa-se que nasceu em 1885 – e era uma pessoa muito ligada à igreja e a um convento de freiras (para onde encaminhou a Maria do Céu, ainda muito jovem).
Esta senhora nos anos 50 foi, curiosamente, única mulher em Ribamar que tinha direito de voto, dizendo-se que era da confiança de Salazar. Diz a avó do Gonçalo, que chegou a assistir à entrega do boletim de voto em sua própria casa, na véspera das eleições, para no dia seguinte ir colocá-lo na urna.

ENTREVISTADOS:
D. Felicidade, bisavó do Gonçalo, (89 anos);
Maria do Céu Teodoro Filipe (67 anos).


BIBLIOGRAFIA:
FONTES, João Luís Inglês, LOURENÇO, Maria da Graça Santa Cruz, A dos Cunhados – Itinerário da Memória, A dos Cunhados, Ed.ª Pró-Memória, 2002.
SARDINHA, José Alberto, Tradições Musicais da Estremadura, Vila Verde, ed.ª Tradisom, 2000.


ELABORADO POR:
Francisco Miguel, 8.º B, 13 anos, Ribamar;
Gonçalo Santos, 8.º B, 13 anos, Ribamar.
Escola Básica c/JI de Ribamar – Agrupamento de Escolas D. Lourenço Vicente
Disciplina de História, lecionada pela docente Maria dos Anjos dos Santos Fernandes Luís.

Data da Recolha:
Ribamar, 15 de abril de 2013


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