Município celebra Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa

08-02-2019
Município celebra Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa
A Semana Mundial da Harmonia Inter-religiosa é celebrada, desde 2011, na primeira semana de fevereiro, com o objetivo de promover o diálogo e a compreensão entre seguidores de diferentes religiões, fés e crenças e de reforçar a harmonia inter-religiosa e a cooperação entre os povos, através da construção de uma cultura de paz, tolerância e entreajuda.

A Interculturalidade - interação entre culturas de forma recíproca - é o estado mais evoluído da democracia e assenta em relações baseadas no respeito pela diversidade e no enriquecimento mútuo.

O concelho da Lourinhã é destino de uma importante comunidade imigrante vinda do Brasil, da Ucrânia, da Rússia, da Moldávia, da China, do Paquistão, do Nepal, da Venezuela, entre tantas outras origens, e que aqui vive, estuda ou trabalha, constitui família e cria relações, integra-se e contribui, com as suas diferenças, para o desenvolvimento económico, social e cultural da Lourinhã e dos lourinhanense.

Somos um concelho intercultural que, ao acolher, reconhecer e respeitar a sua diversidade, se torna mais rico, resiliente e apto para, com respeito e harmonia entre diferenças, viver melhor o presente e saber acolher o futuro.

Neste sentido, escolhemos a Semana Mundial da Harmonia Entre Religião para partilharmos um testemunho local de acolhimento, diálogo e entreajuda. A partilha deste relato foi autorizada pela sua autora, Florbela Fernandes dos Santos, de Ribamar.

"Há 4 anos, entraram no meu estabelecimento 8 indivíduos, 7 homens e 1 jovem mulher. Excetuando a senhora e um dos mais novos, todos tinham a pele muito escura e uns grandes olhos brancos, conferindo-lhes á primeira, um ar austero, até assustador. Estou habituada a lidar com gente diferente e não me senti assustada, mas ouvi comentários da população nesse sentido. Apercebi-me na primeira abordagem que eram de nacionalidade indiana. Por terem sido bem recebidos, e porque eu domino o inglês (a comunicação era uma das suas primeiras dificuldades) passados 2 dias apareceram de novo na loja, desta vez para me pedir ajuda. Contaram-me que tinham vindo por intermédio de um outro indiano, radicado no nosso concelho há 3 anos e que, a troco de uma quantia, lhes prometeu trabalho e habitação. Mas o trabalho ainda não tinha aparecido para nenhum deles, a habitação resumia-se a 2 quartos (pequenos e sem janela) para oito pessoas. Embora a casa tivesse luz, não havia água porque o seu conterrâneo deixou de a pagar e esta fora cortada logo na primeira semana. Queixaram-se-me que o pouco dinheiro que tinham ia acabar em breve e, sem dinheiro para o regresso, iriam passar fome.
Para além de todo o pré-cenário de miséria, vieram ter comigo sobretudo para me pedir ajuda pois todos os dias iam á torneira exterior do Salão Paroquial, encher garrafões de água, e nesse dia encontraram a torneira selada. Entrei de imediato em contacto com o Sr. Pároco e expliquei-lhe a história, sobretudo que tinham sido vítimas de um rol de falsas promessas. Ele acedeu de imediato a repor a água, embora atribuindo-lhes uma quota de garrafões por dia. Resolvido o problema da água, inquietava-me um problema pior: se não arranjassem trabalho, viria a fome. Mantive-me em contacto permanente com eles nessa semana e na seguinte e testemunhei o seu desespero a aumentar: o colega que os trouxe tinha desaparecido e trabalho, nem sinal. Tentei perceber que trabalhos procuravam. Por não falavam nem liam português, e não estando legalizados, a única opção seria a agricultura. Encetei uma verdadeira maratona, posso dizer que um dos meus maiores desafios. Telefonei a todas as empresas de produção/embalamento, meti “cunhas” aos meus conhecidos, bati pessoalmente a todas as portas que me foram indicando. Fiz telefonemas atrás de telefonemas. Sentia-me numa corrida contra o tempo e preparei o Pároco para a hipótese da paróquia ter que ajudar. Eu própria poderia dar-lhes um prato de comer, mas alimentar 8 pessoas por tempo indeterminado seria um fardo demasiado pesado para qualquer família. E não era só de comida que precisavam. Precisavam de uma casa, agua, luz, comida e internet. Sim internet, porque era a única forma de comunicarem com os familiares, preocupados e a milhares de quilómetros de distância. Cheguei a colocar um post no facebook (sem os identificar) a pedir, quase desesperadamente, trabalho para 8 estrangeiros a residir na nossa freguesia.
Em todo o processo, marcou-me profundamente que tenha sido um individuo pobre, e doente, o primeiro a ajudar. Falou com o seu patrão e arranjou trabalho para 4 deles, oferecendo-se ainda para lhes dar boleia, já que o trabalho ficava a 6 km de distância. No dia seguinte, um jovem agricultor vizinho disse-me que, sensibilizado com o problema, arranjava trabalho para os outros 4, embora precisasse apenas de 2. Daí para a frente, os meus amigos indianos foram trabalhando entre uns patrões e outros, conseguindo assim garantir, de forma digna, a sua sobrevivência.
Lembro-me da euforia desses dias, tinha sido uma grande conquista ajudar aquelas pessoas. Cumpriu-se aquilo em que eu acreditava e que lhes ia dizendo para os animar: o difícil era arranjar o primeiro trabalho, depois poderiam sempre mudar para melhor. E dai para a frente, estes senhores passaram a ter um percurso normal de vida, alugando casa e integrando-se na sociedade. Hoje só cá estão 3 deles, o jovem casal e um homem. Vivem em casas confortáveis, tem segurança social, serviços médicos e estão legalizados. Dizem que este agora é o seu país do coração e temos uma excelente relação de amizade. Os outros regressaram á sua terra natal e à família. Mas partiram em paz. Vi-o no seu olhar e ouvi-o das suas bocas quando me vieram dar um caloroso abraço de despedida e tirar fotos para me apresentarem às suas famílias. Diz a Bíblia que não saiba a tua mão direita, do bem que faz a esquerda e, não sendo de me vangloriar do bem que faço, sinto imenso orgulho em partilhar este meu envolvimento. Primeiro porque tenho a noção de que a minha abordagem ao grupo e á sua situação fez toda a diferença. Segundo, porque num mundo tão cheio de racismo, xenofobia e guerras por questões raciais, exemplos como este, com um final feliz, devem ser divulgados e servir de incentivo".



Se vivenciou ou observou um exemplo de éthos de acolhimento intercultural no nosso município, partilhe-o através do seguinte contacto claii@cm-lourinha.pt e contribua para a celebração local do Dia Mundial para a Diversidade Cultural.

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